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Em um dos mais notáveis diálogos de Platão, Górgias, Sócrates enuncia uma máxima que será, ao longo dos séculos, diretamente associada à sua figura histórica e ao próprio surgimento da reflexão ética na Grécia: “É melhor sofrer o mal do que o cometer”. À primeira vista, seu enunciado pode nos parecer paradoxal ou, na melhor das hipóteses, de um altruísmo quase inviável. Não obstante, se atentarmos para o contexto de seu uso, ele revela mais um cuidado de si do que uma abnegação em favor do outro. Por que, para Sócrates, é preferível, por exemplo, ser roubado a ser um ladrão?

 

A resposta, na verdade, lhe parece simples e mesmo óbvia: se eu descobrir que fui roubado ou trapaceado por outro, a despeito do eventual prejuízo material, sempre posso me afastar de quem cometeu esse ato e me prejudicou. No entanto, se for eu mesmo o ladrão, estarei condenado a lembrar desse ato e terei de conviver para o resto de minha vida com um ladrão! Assim, para Sócrates, a ação eticamente reprovável prejudica a convivência daquele que a pratica não simplesmente com o outro, mas consigo mesmo. Ela não produz infelicidade somente para aquele que dela foi vítima, mas também – e, sobretudo, – para quem a perpetrou.

 

É verdade que aquele que comete o mal sempre pode esquecer. Ele pode não mais pensar no que fez e apagar de sua consciência o teor de seus atos. Mas isso implica um mal ainda maior: perder-se de si mesmo. Recusar-se a pensar acerca de seus próprios atos implica destruir a capacidade humana de conversar consigo mesmo; de retomar, narrar e julgar seus atos tendo em vista não somente a convivência com o outro, mas o convívio respeitoso para consigo mesmo. E é essa capacidade de refletir que nos constitui como pessoa; como humanos e não simplesmente como mais um exemplar da espécie Homo sapiens.

 

Por isso a ética socrática, mais do que uma ética do dever em relação ao outro, é uma ética da integridade consigo mesmo. Cuidar de si, desse diálogo silencioso de que somos todos capazes, significa nos constituirmos como seres pensantes e dotados de consciência moral. E não o fazemos simplesmente porque isso é um dever para com o outro, mas também porque é a nossa própria oportunidade de levar uma vida que valha a pena ser vivida; uma vida para a qual podemos olhar retrospectivamente e afirmar que fomos dignos do mais precioso bem que nos foi dado: nossa existência em meio à pluralidade dos homens.

 

A ética socrática é, assim, uma ética da felicidade. Não a felicidade entendida como um bem-estar psicológico momentâneo, mas como um modo de vida que se escolhe a partir do reiterado exame dos nossos atos à luz de nossa consciência. Nisso reside o valor formativo dos atos e das palavras de Sócrates. Afinal, no julgamento que resultou em sua morte, ele afirmou que preferia morrer a cessar de examinar a própria vida. A integridade da pessoa lhe parecia mais preciosa do que a manutenção da vida de um mero Homo sapiens.

 

*José Sérgio Fonseca de Carvalho
Doutor em filosofia da educação pela Feusp e pesquisador convidado da Universidade Paris VII
jsfc@editorasegmento.com.br

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