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Precisamos ser leitores. Deixou de ser uma opção qualquer. Precisamos ser leitores, sem pestanejar. Sem hesitar. Sem titu­bear. Talvez nunca tenha sido uma questão tão, tão, mas tão premente. Não há mais tempo para esperar o melhor tempo. Agora é uma questão de sobrevivência para todos nós. De vida ou de vida. A leitura salvará a sociedade. A leitura salvará o planeta. A leitura salvará o livro. A leitura é o sal da terra e a luz do mundo.

 

Quem escreve tem incurável fascínio pelos leitores. Os escritores querem criar o seu leitorado, porque sabem que o leitorado lhe dará o único poder que um escritor merece ter: o voto de confiança em sua palavra.

 

Há diferentes tipos de leitores. Ao definir o seu leitor, o escritor define o que irá fazer para que possa chamá-lo de “seu leitor”. Diga-me quem é o seu leitor, e eu lhe direi que tipo de escritor você é. E na outra direção também: diga-me que leitor você é, e eu lhe direi quais os escritores criaram você.

 

Leitores caçadores

O pensador francês Michel de Certeau dizia que o leitor é um caçador que percorre terras alheias. Este leitor caçador invade, na página, a mente de outra pessoa. E captura imagens. Persegue palavras e prepara armadihas para os conceitos mais ariscos. O leitor caçador coleciona em sua biblioteca particular, como se troféus fossem, os autores que um dia alvejou com seu olhar.

 

Outro francês, menos conhecido, o professor Vincent Jouve, acha que o leitor é um voyeur legítimo. É um caçador diferente do anterior. É um caçador contemplativo, que mantém distância. Gosta de olhar e ver, mirar, acompanhar de longe os gestos dos personagens. Este leitor furtivo abre o livro como quem fica por trás da persiana, observando o movimento da rua.

 

O escritor argentino Ricardo Piglia definiu, em seu livro O último leitor, que o leitor é justamente aquele que busca o sentido da experiência perdida. E é assim que este outro tipo de leitor caçador recupera todo o tempo que perdeu e simultaneamente ganhou na leitura.

 

Para o romancista russo-americano Vladimir Nobokov, o leitor é aquele que vai construindo um dicionário cerebral abundante, complexo, e, desse modo, adquire sentido artístico ao falar e escrever. Este tipo de leitor é forte candidato a ser escritor. É também um caçador. Talvez um “caçador de mim”, porque a leitura leva-o a conhecer-se melhor e a expressar-se com mais agudeza.

 

O ritmo do leitor

Kafka reconhecia-se como um leitor lento. Por ser meticuloso demais, este tipo de leitor não tem pressa. Parece-lhe necessário avançar com redobrado cuidado no labirinto do texto. E para que, afinal, ler correndo e não perceber a realidade nua, dura, crua?

 

A escritora e ensaísta Francine Prose faz um alerta. Quem lê muito rápido entenderá a narrativa, as ideias, as verdades de um texto, mas tal rapidez pode tornar-se sério empecilho para saborear as entrelinhas.

 

Guimarães Rosa queixava-se dos leitores analfabetos para as entrelinhas. O leitor que corre nas linhas pode vencer na velocidade dos parágrafos, mas perde na maratona da compreensão profunda. E Rubem Alves, mestre de leituras, tinha outra queixa: quem lê rapidamente aquilo que o autor levou talvez uma década para pensar e produzir comete uma grande falta de respeito com o escritor. Nietzsche, uma das paixões de Rubem Alves, confessou: “Não fui, em vão, filólogo, e ainda o sou talvez. Filólogo quer dizer mestre na leitura lenta”.

 

O leitor lento (não sonolento) medita, rumina, assimila as palavras, e as transforma em carne da sua carne.  Adquire a autoridade da leitura. O leitor lento, atento, desenvolve a capacidade de caminhar com decisão em direção ao seu destino.

 

O leitor amado

Em busca de seu leitorado, o escritor faz uma incansável campanha verbal. Machado de Assis, falando através de seus narradores, refere-se ao “amado leitor”. Não sejamos ingênuos, porém. Há uma pitada de ironia nesse amor. Machado também o chama “fino leitor”, “leitor pacato”, “curioso leitor”. São provocações para que o leitor leia melhor. Para que sejamos realmente finos e curiosos. Ainda que continuemos cultivando a pacatez…

 

Num dos seus poemas em prosa, Mario Quintana constata em si a atitude quixotesca. Tal atitude o leva a recriar as coisas em imagens (diferentemente de Sancho Pança, que vê apenas a realidade). Ao invés de solucionar a contenda entre Quixote poético e Sancho pragmático, Quintana afirma que sua “atroz função não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar e não pensar por ele”. E é isso o que o poeta faz: repassa ao “pobre leitor” o enigma da leitura.

 

Tornar-se leitor consiste em assumir o claro enigma da própria existência humana. Habilidades e competências serão inúteis, se não houver (estou pensando na educação integral) algo mais do que viver somente no plano do que é prático, eficaz, do que é produtivo, lucrativo. Os moinhos de vento tornaram-se, de fato, guerreiros gigantes.

 

Gabriel Perissé é professor da PUC-RS, escritor e palestrante                                                                                             www.perisse.com.br

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